Desvendando a história de Deuses Americanos

Embora tenha sido escrito em 2001, Deuses Americanos se mantém super atual. Neil Gaiman afirma que se trata de uma história da alma dos Estados Unidos, do que as pessoas levaram para lá e o que acharam quando chegaram. Mas vou te mostrar que não se trata apenas dos EUA, e sim do mundo e de todos nós.

Detalhes do livro

Capa do livro Deuses Americanos
Título: Deuses Americanos (Edição Preferida do Autor)
Autor: Neil Gaiman
Páginas: 576
Editora: Intrínseca
Lançamento: 24/10/2016

Sinopse: Deuses americanos é, acima de tudo, um livro estranho. E foi essa estranheza que tornou o romance de Neil Gaiman, publicado pela primeira vez em 2001, um clássico imediato. Nesta nova edição, preferida do autor, o leitor encontrará capítulos revistos e ampliados, artigos, uma entrevista com Gaiman e um inspirado texto de introdução.

A saga de Deuses americanos é contada ao longo da jornada de Shadow Moon, um ex-presidiário de trinta e poucos anos que acabou de ser libertado e cujo único objetivo é voltar para casa e para a esposa, Laura. Os planos de Shadow se transformam em poeira quando ele descobre que Laura morreu em um acidente de carro. Sem lar, sem emprego e sem rumo, ele conhece Wednesday, um homem de olhar enigmático que está sempre com um sorriso no rosto, embora pareça nunca achar graça de nada.

Depois de apostas, brigas e um pouco de hidromel, Shadow aceita trabalhar para Wednesday e embarca em uma viagem tumultuada e reveladora por cidades inusitadas dos Estados Unidos, um país tão estranho para Shadow quanto para Gaiman. É nesses encontros e desencontros que o protagonista se depara com os deuses – os antigos (que chegaram ao Novo Mundo junto dos imigrantes) e os modernos (o dinheiro, a televisão, a tecnologia, as drogas) -, que estão se preparando para uma guerra que ninguém viu, mas que já começou. O motivo? O poder de não ser esquecido.

O que Gaiman constrói em Deuses americanos é um amálgama de múltiplas referências, uma mistura de road trip, fantasia e mistério – um exemplo máximo da versatilidade e da prosa lúdica e ao mesmo tempo cortante de Neil Gaiman, que, ao falar sobre deuses, fala sobre todos nós.

Quem é Neil Gaiman

Neil nasceu em Hampshire, Inglaterra, em 10 de novembro de 1960 e hoje vive perto de Minneapolis, nos Estados Unidos. Ele descobriu seu amor pelos livros na infância com as histórias de C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien, Edgar Alan Poe e outros autores.

Começou a carreira como jornalista, mas se destacou por construir tramas e universos únicos – o que o levou para o mundo dos quadrinhos com a série Sandman. Suas obras receberam inúmeros prêmios e tiveram ótimas adaptações para o cinema, televisão e até ópera. Um exemplo disso é o filme Coraline, de 2009.

Neil Gaiman ficou famoso pela sua série de quadrinhos Sandman, mas seus 13 romances não ficam atrás. Além disso, ele também escreve roteiros de filmes e contos infantis.

Veja mais: Conheça todas as 45 obras de Neil Gaiman lançadas até 2017

Ele tem mais de 94 mil leitores no Skoob e Deuses Americanos tem a pontuação de 4,2 de 5.

Resenha de Deuses Americanos

Primeira edição do livro Deuses Americanos

O livro mergulha em uma história que mescla a realidade com uma fantasia de deuses. O gênero é ficção – o que abre um leque para um humor negro, ação, aventura, trama policial e romance – tudo junto.

O enredo da história possui humor bem localizado que dá para rir alto, tem uma pitada bem leve de suspense e amostras de ação. Conta também com trocadilhos e pistas escondidas sobre as mitologias (quem conhece pega logo de cara mas tudo é explicado nas Notas da Tradução para quem não sabe – vale a pena ler).

O centro da narrativa de Deuses Americanos é o personagem Shadow Moon. Na história, o ex-presidiário viaja pelas estradas dos EUA prestando serviços para o senhor Wednesday, que precisa recrutar seus aliados – eles se preparam para uma guerra entre deuses antigos contra deuses novos.

Dentro da trama vemos sempre dois caminhos: um é sobre as pilantragens de Wednesday (sempre cheio de mistério) e o outro sobre os momentos calmos (até de mais -.-) em que Shadow fica aguardando a próxima missão. Com isso conhecemos vários personagens (tanto deuses quanto humanos) e cada um traz uma bela contribuição para o enredo total. Cada um adiciona sua bagagem emocional e histórica no carro de Shadow. HAHAH 😄

Gaiman não tem pressa para desenrolar o confronto, cria muita expectativa e nos coloca uma pulga atrás da orelha com toda essa história de guerra entre os deuses. Ele contextualiza tudo calmamente, o que em alguns momentos cansa. É como se ele quisesse que você descubra as coisas junto com o Shadow – e ele não sabe de nada. Às vezes interrompe a narrativa para contar uma pequena história que se passou há muitos anos ou na noite anterior a quilômetros de distância de onde Shadow está. E isso enriquece a história nos mostrando diversas situações. Mas fica aqui a minha dica: paciência 🙂

Os diálogos são bem construídos, além de soarem muito naturais ao contar sobre crenças do passado e sobre cultos a deuses. Tudo parece como uma conversa entre amigos, como se deuses fossem pessoas normais (como na citação abaixo). Não se espera uma abordagem tão humanizada em um deus. E claro que tudo isso mostra o talento de Neil Gaiman, afinal ele possui uma escrita direta e simples que dá gosto de ler.

– Ei, Jacal.
– Diga.
– Você acredita em alma?
– Depende. Na minha época, tudo já estava bem acertado. Você entrava em uma fila quando morria, respondia pelos atos ruins e pelas boas ações, e, se a parte ruim fosse mais pesada que uma pena, dávamos sua alma e seu coração para Ammit, a Devoradora de Almas.
– Ela deve ter comido muita gente.
– Menos do que se esperaria. Era uma pena muito pesada. Mandamos fazer sob encomenda. A pessoa tinha que ser bem maligna para virar a balança com aquela coisa. Pare aí, no posto de gasolina. Vamos abastecer um pouco.

(Página 202 onde Shadow conversa com o deus Anúbis da mitologia egípcia)

A pesquisa sobre as mitologias foi tão funda que Gaiman encontrou um deus pouco lembrado do século XII, o Chernobog (Chernabog, Tchernobog ou simplesmente o Deus Negro). Esta entidade eslava é a representação do mal – é o deus da morte, caos e azar. Dentre tantos deuses, não consegui identificar apenas um deles. Se você sabe qual é o deus que Shadow sempre esquece o que ele fala, e quando Wednesday responde quem ele é o Shadow também esquece a resposta, por favor me conte nos comentários!

A Moral da História

Deuses Americanos é uma crítica sobre nossa concepção de deuses, sociedade, fé e o que realmente importa para nós. Trazer essa premissa em uma história normal poderia ser cansativo e clichê, mas ao criar um universo fantástico (que se mistura com nossa própria realidade), Gaiman torna tudo mais atrativo.

Na interpretação de Gaiman, a fé acompanhou as pessoas de maneira personificada. Os deuses vieram da Europa, da África e outros lugares mas acabaram sendo esquecidos aos poucos na América, acabaram sendo trocados pela tecnologia, dinheiro, fama – e enfraqueceram.

Não é só porque somos poucos, e eles muitos; nós, fracos, e eles poderosos; que estamos perdidos.

A obra promove muitas reflexões sobre como a sociedade atual é desapegada das culturas e religiões antigas e como nos preocupamos com fama, internet e a mídia. Mas o buraco é um pouco mais fundo que isso. Ela não fala só sobre o desapego do antigo, mas também mostra a mutação de crenças. A mudança da fé e a necessidade humana de devoção. Deuses Americanos nos lembra que as nossas necessidades básicas mudam de acordo com o tempo. E que nós mudamos e deixamos certas coisas para trás.

As pessoas acreditam. É isso que as pessoas fazem: acreditam. E depois não assumem a responsabilidade por suas crenças. Conjuram coisas e não confiam nas próprias conjurações. As pessoas povoam a escuridão com fantasmas, deuses, elétrons, histórias. As pessoas imaginam e acreditam: e é essa crença, essa crença sólida, que faz tudo acontecer.

Mas não pense que Deuses Americanos só é crítica social, também é entretenimento e ficção. Você pode abstrair todas as essas questões e só aproveitar a história no banco do carona do carro de Shadow – e ficar tão confuso quanto ele tentando descobrir as armações de Wednesday.

Foi exatamente o que eu fiz. Assim que eu terminei o livro me deu uma vontade de começar a ler ele novamente no mesmo instante!! (ou ligar pro Gaiman e pedir ‘migo, manda logo o 2. Obrigada’)

Menção Honrosa

No livro nos deparamos com um capítulo extra em que Shadow encontra Jesus Cristo (relaxa, não tem spoiler). Gaiman explica porque foi cortada da narrativa original do livro, mas na Edição Preferida do Autor ele achou importante nos presentear com um gostinho dela.

Esse encontro foi inserido e adaptado de uma forma melhor na série (Sim, fizeram um série! Já falo mais sobre). Para quem leu e assistiu a série vai notar uma bela diferença entre as duas situações, mas como se trata de formas diferentes de contar a mesma história (literariamente e cinematograficamente), a série encontrou o momento certo para introduzir à cronologia da narrativa. Então eu não poderia deixar de fazer essa menção honrosa, pois ambas são muito lindas.

A Série (sem spoilers)

Poster da série American Gods

A adaptação do livro no canal Starz (e exibido no Brasil pela Amazon Prime) tem Bryan Fuller, Michael Green e próprio Neil Gaiman como produtores executivos.

O elenco é montado pelos deuses antigos (Peter Stormare como Czernobog, Orlando Jones como Anansi, Chris Obi como Anubis) e os novos (Crispin Glover como Mr. World, Bruce Langley como Technical Boy, Gillian Anderson como Media) e os nossos protagonistas Shadow Moon (Ricky Whittle) e Ian McShane como Wednesday.

Outros membros do elenco que se destacaram na trama foi Emily Browning como Laura Moon e Pablo Schreiber como Mad Sweeney. Um plus assertivo da adaptação que ampliou o enredo dos personagens e deu espaço para entender a complexidade da esposa em sua própria visão.

Outro ponto certeiro do roteiro foi criar uma atmosfera de surrealismo em tudo, menos em Shadow – o que diferencia deuses e humanos. A série trouxe aspectos viscerais tanto visualmente quanto em relação às temáticas abordadas na trama – entre os baldes de sangue e a crítica bem abordada. No primeiro impacto parece ser exagerado mas esse é o estilo de Fuller (que produziu Hannibal, por exemplo).

Não é a toa que a série foi renovada para a segunda temporada logo após sua estreia: Deuses Americanos acertou em cheio! Eu não sou aquela pessoa chata com adaptações, em geral gosto de assistir tudo pois sou apaixonada por cinema.

Precisamos falar sobre a abertura da série

Abertura da série American Gods

Que composição e que música, hein?! Na abertura vemos os detalhes de uma espécie de totem de adoração e tributo que mescla as referências das novas e das antigas culturas. Assisti ela inteira em todos os 8 episódios! Simplesmente linda.

A American Gods Brasil fez um post explicando todos os detalhes da abertura. Você pode conferir aqui.

Ficou curioso para ler?! Aproveite e assista a série também 😉 Se você já leu, qual é o seu deus preferido?