Nesta biografia, conheceremos a história de Fritz Müller, o naturalista alemão que viveu no Brasil e que, de Santa Catarina, tornou-se correspondente e colaborador direto de Charles Darwin, desempenhando papel fundamental na consolidação da teoria da seleção natural.
O livro foi inicialmente disponibilizado por meio de financiamento coletivo e, atualmente, encontra-se à venda de forma ampla, tanto em versão física quanto digital, em lojas on-line e em livrarias físicas.
Historiadores x Jornalistas

Evandro de Assis é jornalista com mais de 25 anos de atuação em Santa Catarina. Mestre em Jornalismo pela UFSC e integrante da equipe do Jornal de Santa Catarina vencedora do Prêmio Esso em 2009, ele também é o vencedor do Prêmio Fapesc de Jornalismo em 2022 pela série sobre o bicentenário de Fritz Müller.
Sendo a formação do autor em jornalismo, e não na historiografia acadêmica, surgem questionamentos (por parte de algumas pessoas) sobre quem tem o direito de contar o passado.
Assim como ocorre com autores como Laurentino Gomes (1808,1822,1899 e trilogia escravidão), o jornalista trata-se de um profissional que domina a arte de narrar, sabendo contar histórias de forma clara, envolvente e acessível a um público amplo.
Ainda assim, os fatos apresentados nas obras, tanto de Laurentino quanto de Evandro, são sustentados por ampla pesquisa e pelo diálogo com numerosas fontes históricas e trabalhos de historiadores.
O rigor na apuração e o cuidado com as informações demonstram grande seriedade.
“Os jornalistas devem levar os historiadores a desenvolver oratória e escrita mais acessível ao grande público, enquanto os acadêmicos de formação metódica podem auxiliar os formados em Comunicação em relação aos processos e procedimentos da pesquisa histórica.”
Professor Marcos Antonio da Silva (FFLCH-USP)
Em minha opinião, como alguém com formação e atuação na área de história, trabalhos desse tipo merecem reconhecimento, pois cumprem um papel fundamental ao tornar a história mais próxima do grande público, rompendo as barreiras do meio acadêmico e ampliando o acesso ao conhecimento histórico.
A biografia de Fritz Müller
Caso alguém pergunte por aí “quem foi Fritz Müller”, provavelmente ouvirá algumas dessas coisas:
- “médico alemão barbudo”,
- “morador de Blumenau”,
- “estudava borboletas”,
- “andava de pés descalços” e
- “trocava cartas com Charles Darwin”.
E nenhuma dessas informações está errada.

Mas por trás dessa imagem quase folclórica existiu um cientista muito mais complexo, cuja trajetória científica, política, pessoal e intelectual ultrapassa em muito esse retrato simplificado.
E é isso que essa biografia abordará. Desde seu nascimento na Prússia (Alemanha ainda não era um estado unificado), seguindo por sua educação, constituição familiar, imigração para o Brasil, suas pesquisas, seu envolvimento com a política e, até, consequentemente, sua morte.
Naturalista, botânico, zoólogo, entomologista, carcinologista, ecologista, embriologista, etnógrafo, educador, médico… ufa! Fritz era alguém de interesses múltiplos e, durante a leitura, lembrou-me imediatamente de outro polímata — alguém com conhecimento amplo e profundo em diversas áreas do saber: Leonardo da Vinci.

Fica, aliás, a recomendação de sua biografia escrita por Walter Isaacson; adivinha a profissão dele? Sim, também um jornalista.
Embora a narrativa tenha como foco principal a trajetória de Fritz Müller, o autor insere o personagem em contextos históricos mais amplos, fundamentais para a compreensão de sua vida.
São exemplos os acontecimentos fundamentais da história europeia (e do mundo como um todo), como a Revolução Francesa e o período napoleônico, que redefiniram ideias, fronteiras e mentalidades no século XIX.
Também não podemos esquecer da história de nosso próprio país, onde a proclamação da república também vai afetar a vida de Fritz Müller.

Esses contextos ampliam a leitura, permitindo ao leitor compreender que a trajetória de Fritz Müller não se desenvolveu de forma isolada, mas esteve profundamente conectada às grandes transformações históricas de sua época.
Os nomes dos capítulos são um tanto curiosos, como Aipim, Tília, Palmito ou Água-viva. Esses nomes estão diretamente relacionados à vida e à trajetória de Fritz Müller. Os capítulos também são acompanhados pelos seus nomes científicos, algo que também se relaciona com o trabalho de naturalista.
O significado e o motivo da escolha desses títulos só se revelam ao longo da leitura de cada capítulo. Trata-se de uma forma criativa de nomear os capítulos, que desperta a curiosidade do leitor e acrescenta camadas de sentido à construção da obra.
Sobre a vida de Fritz, um dos pontos que mais me chamou atenção foi a questão religiosa. Em uma sociedade fortemente marcada pela influência da religião, e ainda mais tendo forte ligação com o luteranismo (seu pai era pastor), Fritz Müller se destacou por uma postura pouco comum em seu tempo: o ateísmo.
Sua posição revela um pensamento crítico e alinhado aos ideais do racionalismo e da ciência, que orientaram sua formação intelectual e sua atuação como naturalista. Mas, curiosamente, essa paixão pela natureza surgiu com o pai.
O pensamento do religioso Johann Friedrich Müller era flexível para os padrões luteranos daqueles tempos. Inclinava-se ao racionalismo, sob impacto direto ou indireto do Iluminismo, e incentivado pelo prazer que sentia ao observar o mundo natural. Müller provavelmente enxergava o divino na própria natureza, o que já era heterodoxo.
Trecho da biografia de Fritz Müller
O ateísmo de Fritz vai, definitivamente, causar problemas em sua vida – como não conseguir o diploma de medicina, e atrapalhar as relações pessoais com moradores em Santa Catarina.
Mas também é necessário citar as questões políticas: nos anos finais de sua vida, pegava muito mal um admirador de D. Pedro II em um Brasil republicano.

Como consequência, o legado de Fritz Müller foi preservado de forma fragmentada e tardia. Seu nome demorou a ocupar o espaço que lhe cabia na memória coletiva. O reconhecimento veio mais tarde, muitas vezes impulsionado por pesquisadores estrangeiros (como seu primo Alfred Möller, onde muitos biógrafos se baseiam para contar a história de Fritz).
Blumenau

A origem da cidade de Blumenau está diretamente ligada à trajetória de Fritz Müller, cuja presença na região ultrapassa o papel de simples imigrante.
Estabelecido na colônia fundada por Hermann Blumenau, Müller tornou-se uma das figuras centrais no desenvolvimento intelectual e científico do local, exercendo várias funções dentro da colônia, como presidente da comissão de socorro, após uma das piores enchentes em Blumenau, e até mesmo o cargo equivalente a de prefeito.
A relação entre Fritz Müller e o Dr. Hermann Blumenau foi marcada tanto pela convivência dentro do projeto colonizador quanto por divergências de ideias e valores.
Ambos eram alemães, com sólida formação intelectual, e estiveram ligados à fundação e à organização da colônia de Blumenau, compartilhando o desafio de estruturar uma comunidade em meio às dificuldades do ambiente catarinense do século XIX.

No entanto, enquanto Hermann Blumenau atuava como idealizador e administrador da colônia, Fritz Müller se destacou sobretudo como cientista, professor e observador da natureza. Suas diferenças políticas, religiosas e de visão de mundo evidenciam que a história da colônia não foi homogênea, mas construída a partir de múltiplas perspectivas.
Se for pra ser chato e precisar apontar algo em que a obra ficou devendo, seria um entendimento maior sobre a colonização no sul do país, não como apenas um interesse de popular regiões brasileiras e exploração do espaço, mas também como a ideia de branqueamento, já que neste período tinham pessoas pretas como mais da metade da população brasileira. Mas, também em defesa do autor, a colonização em si não é o foco, e caso ele entrasse em todo tema que fosse interessante abordar, o livro teria 2 mil páginas.
De qualquer forma, o autor não deixa de fora os casos de escravidão e extermínio dos povos indígenas em Santa Catarina. No que se refere à escravidão, desde a juventude o naturalista posicionava-se de forma contrária a essa prática, chegando inclusive a defender a capacidade intelectual da população negra frente aos estudos racistas na época.
Além disso, o fato de a escravidão ser proibida na Colônia, idealizada por Hermann Blumenau como um espaço de trabalho livre, contribuiu para sua escolha pela região ainda enquanto se encontrava na Europa.
Porém, a rejeição à escravidão não significava integração racial, pois a colônia era um projeto apoiado pelo império no qual seria uma comunidade de pequenos proprietários e trabalhadores livres, distinta do modelo de latifúndios e escravidão dominante no resto do país.
Cartas para Darwin

Um dos aspectos mais interessantes da trajetória de Fritz Müller foi sua intensa relação intelectual com Charles Darwin, criador da teoria da evolução por seleção natural.
Embora nunca tenham se encontrado pessoalmente, os dois mantiveram uma correspondência científica constante, na qual Fritz compartilhou observações realizadas no Brasil, especialmente em Santa Catarina, que tiveram profundo impacto no desenvolvimento e na consolidação da teoria evolucionista.
Entre suas contribuições mais relevantes estão as evidências sobre o papel da embriologia na seleção natural. Ao comparar estágios embrionários de diferentes espécies, Fritz demonstrou semelhanças estruturais que reforçam a ideia de ancestralidade comum, oferecendo bases sólidas para a teoria darwinista. Pelo volume, originalidade e relevância de suas observações, Fritz é considerado o maior colaborador de Darwin fora da Europa.
O próprio Darwin reconheceu a importância de Fritz, referindo-se a ele como o “príncipe dos observadores”, um elogio que evidencia a precisão e o rigor científico de seus estudos.
Darwin citou Fritz Müller diversas vezes em seus trabalhos, inclusive em edições posteriores de “A origem das espécies”, incorporando descobertas feitas em território brasileiro ao debate científico europeu.

Mais do que um simples correspondente, Fritz Müller foi um defensor ativo da teoria da evolução, sustentando-a não apenas por convicção teórica, mas por meio de observações diretas e experimentações próprias. Seus estudos envolveram organismos como caranguejos, camarões e, sobretudo, borboletas (algo muito associado a ele, é só perceber as artes pela internet ou as cidades de Blumenau e Florianópolis) contribuindo de forma decisiva para a compreensão da adaptação, do desenvolvimento e da diversidade das espécies.
Resenha: opinião final
Essa biografia reforça como a leitura sobre Fritz Müller está longe de se esgotar. Na minha opinião, o livro se torna uma leitura obrigatória para quem vai iniciar os estudos sobre essa figura e também para quem já é veterano quando o assunto é Fritz, pois existe muita coisa inédita.
Avaliação de Fritz Müller
A biografia apresenta um retrato amplo e bem fundamentado de Fritz Müller, destacando sua trajetória científica, intelectual e pessoal no Brasil e seu papel central na consolidação da teoria da seleção natural como colaborador direto de Charles Darwin. Escrita por um jornalista, a obra se apoia em pesquisa rigorosa, diálogo com fontes históricas e contextualização dos grandes acontecimentos do século XIX, tornando o conteúdo acessível sem perder seriedade. Ao ir além da imagem folclórica associada a Müller, o livro revela a complexidade de seu pensamento, suas posições políticas e religiosas e a relevância duradoura de suas contribuições científicas. Trata-se de uma leitura essencial tanto para iniciantes quanto para leitores já familiarizados com a figura de Fritz Müller.
Lados positivos
- Pesquisa extensa e bem fundamentada em fontes históricas.
- Linguagem clara e acessível a um público amplo
- Boa contextualização histórica do século XIX.
Lados negativos
- Abordagem limitada sobre o processo de colonização no sul do Brasil.







